domingo, 7 de fevereiro de 2010

Libertação.

As costas arqueadas, o cansaço molda-me o perfil.
Solto um suspiro ao sentir que o domingo se estica.
Não vejo ninguém, me perco numa razão tímida
Que se cala e não se expressando se sufoca.
Mais um suspiro diante do tempo que não passa.
Numa carícia gratuita esfrego os olhos. Tomo
Um susto num gole só. O passado acende a luz
da sala. A cara vermelha de sono ou vergonha
Torna-se azul metálica, o riso, nem amarelo ou
Branco, o riso negro. O olho verde cheio de espera.
As costas arqueadas, o olho concentrado no presente.
O tempo sempre passa, mas passando lento é tortura.
Um suspiro se estica e deixa entrever entre o passado
E o futuro do tempo um momento em que, mesmo
Num domingo lento, um desejo se insinua realizar.
Deixar, deixar, deixar ir, não se deixar ficar.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Impromptus

Assim, numa noite de domingo, quando não podia mais olhar para ninguém, pois no rosto de todos via a mesmice que sua vida havia se transformado, pegou delicadamente o vinil, aquele disco a mofo, e deitou sobre o prato da vitrola, levou a mão à agulha, preparou-se com nostalgia e pôs a vitrola para tocá-lo. A água que fervia era, a princípio, para o café, mas como seu estômago lhe acenava com cautela, decidiu que melhor seria tomar um chá. No meio do caminho entre a sala e a cozinha considerou um plano diferente. Tomaria um suco. Foi o que fez, afinal, mudança era seu hábito. Estava com o copo de suco na mão, sentou-se na sala, na poltrona antiga que ameaçava se deteriorar, seu espírito também ameaçava se deteriorar, no entanto nenhum, nem outro cumpria sua ameaça. Se lembrara sim de desligar o fogo. A água, antes, pronta a se transtornar em bolhas, transformou-se em um espelho tranquilo. Mas ele, covarde, olhou de relance a água parada, sabia que ali estava escondido a dor que temia ver incrustrado em seu rosto. Com o olhar fugido e o copo de suco na mão deixou-se abraçar pelas almofadas adormecidas na poltrona. Numa noite de um domingo pálido, o refresco de um copo de suco gelado e o abraço sem braços de algumas almofadas eram as carícias, não desejadas, mas permitidas. Um acorde menor para um acorde maior e a música que escorria do disco para a vitrola e desta para a sala lhe conquistou a atenção. Era Schubert, era Arrau. O tempo triste acalmou-se e esperou passar o tempo da música. Um som sublime, uma frase cantada, um acorde súbito mergulhou-se em arpejos, uma sequência, noutra sequência, um tempo pintado em sons. E mudanças sempre, as variações. Tensão numa nota. Numa surpresa, o triste de seu dia de domingo improvisou um sorriso.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Brainstorm

Cerveau! Fome, fome de cana. Fome de Bahia, candomblé, praia, falha na praia. Pranto. Prumo, pato, ranso, ganso, ganso de ouro, galinha, tesouro, galinha, toque, Midas, mentiras, mulatas, morenas, mucambos, problemas. Problemas, calor. Problemas, chuva, terremoto, fim de mundo. Cinco dimensões. Três dimensões. Três porquinhos. Três pouquinhos e um lobo. Um lobo bronzeado na praia. Um lobo, um rouco, um louco. Três mosqueteiros, um mosquito, um mosquete. Pólvora, aurora. Icaro, Dédalo, labirinto. Um lobo com cabeça de boi. Muitas virgens. Um virgem. Um filme. Um velho. Uma planta de casa. Um planta de floricultura. Um planta do pé. Um pé-de-moleque. Um doce na boca. Um mel, um chapéu, uma moça, louca. Um lóbulo a menos. Um lobo arquiteto. E um frango assado. Uma galinha gorda extremamente possessiva. Um filme de um diretor loiro. Um problema que se resolve com o frio. Um gelo no copo de uísque. Um porquinho e uma raposa. Uma raposa dos ovos de ouro. Uma mentira sobre um toque de ouro. Uma prostituta, um partidário. Um político e uma carreira de cocaína. Um terreiro de umbanda no interior do Mato Grosso. Minas Gerais vazia. Uma cidade à margem. Uma cachaça no copo. Um gole, outro gole, um cigarro e um tombo. O cérebro dorme em conserva.


P.S.: Precisava disso para poder dormir.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Ano novo.

- Deus não dorme.

É meia-noite e cinquenta e seis. Passando na frente de uma igreja aberta, luzes acesas, uma oração entoada. Um gato empuleirado no muro. Um gato negro neurótico insulta-me. Seus olhos verdes contra os meus. A existência faz sentido.

- Não se pode dormir. Não se pode dormir mais, sozinho.
- Não posso também.

A chuva que não cai, não molha. O rádio ligado, uma música romântica. O brega, a fossa, o fracasso. O fracasso dos entorpecentes, dos calmantes, dos ansiolíticos.

- Não durmo porque deus não dorme.
- Não durmo porque você não dorme.

Não dormimos juntos, nem separados. Apenas não dormimos. O gato faz-me, com o olhar, um mimo. Enquanto eu caminho no sozinho da calçada de uma noite sem calmantes. A existência neurótica. Uma música brega entorpecendo meu fracasso. E enquanto não durmo, o gato me olha, deus me olha e eu insulto a igreja que passou.

- Olha o tempo que passa! Eu, eu não durmo para vê-lo passar.

Os cinquenta e seis minutos dessa meia-noite se fazem cinquenta e nove. Eu não existo, mas caço sentido. Eu neurótico não me acalmo. Eu pela noite, seco, deliro. E sei que tudo será diferente, pois será uma hora da madrugada em alguns segundos. Hora nova, vida nova. Penso.

Me tranquilizo. Dormirei. Com ou sem você.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Chuva

Desceu do céu uma nuvem,
assim, um pouco atormentada.
Seu semblante pesado, sua
alma escurecida pelo medo.
Veio em lágrimas.
Aqui, na terra, batia ansiosa,
queria atravessar as casas,
queria romper o asfalto,
queria entrar nos homens.
Tremia, ventava, a dor da perda.
O tranquilo que fora outrora,
os desenhos idos e os
pássaros passados, tudo era
e já não sendo queria ser outra coisa.
Foi carinho, tornou-se triste e logo
tornou-se desespero, tempestade.
Chuvia para afogar suas mágoas.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O silêncio.

O portão branco de ferro caiado

Protege a frente da casa.

O portão protege tudo dentro da casa.

Protege a casa verde.

E o que não é verde na casa

– não cuidaram dos jardins,

Agora apenas terra e folhas secas,

Já não brilham as rosas.

Mesmo assim, o portão

Baixo e de ferro caiado

Protege a frente da casa

Com suas janelas abertas.

Por trás do portão um vestido.

Vê-se um andar cansado,

Que atravessa o portão e o tempo,

Um andar ido em muitos anos.

Um subir e descer que vai do

Portão à esquina da rua,

Como quem procura uma razão.

Ou assim, meio perdido,

De quando se espera por alguém

Para o almoço: se espera uma surpresa.

Um andar, ansioso, mas lento, que tem

Por companhia um portão,

Um portão branco, apenas.

E assim, o tempo passa. Passam-se

Os dias, lentos, ora alegres,

Ora em ventos. E enquanto sopra

O vento, o vestido de algodão

Acende uma vela e ora, e chora,

E volta ao portão como quem espera.

Mantêm-se paciente (o vestido). Olha na esquina,

Observa o que vem do cruzamento das

Ruas. E volta, para a companhia

De um portão branco de ferro caiado.

Hoje, o portão, já não protege mais aquele

Vestido de algodão que guardou,

Por longos anos, olhos

Acinzentados vidrados no futuro

E tecidos de paz e amargura,

Amargura de quem espera,

Por uma companhia diferente que seja

Daquele portão protetor de ferro caiado de branco.

O vestido no armário, o portão protege a casa,

O silêncio da espera.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Abraço

Aos poucos, no que teus braços

Contornam meus traços, minha

Consciência em lentos passos

Percorre meus nervos, me salta

Dos poros e arrebata parte

De teu espírito para mim.

Meus trêmulos braços percorrem

Seus traços e eu, com consciência

Canibal (engolindo teu espírito) e

Nervos em saltos, tento, traço

A traço, um passo a mais em

Teus braços. Mas nós, nervo a nervo,

Passo a passo, em poros, braços e

Espíritos – ora estreitos ora esparsos –

Nos demoramos, conscientes apenas

Do abraço (que aproxima, mas que

Reafirma – aquele que separa – o traço).